terça-feira

Reforma

Leio sobre a nova reforma ortográfica, a terceira em um século. Algumas palavras perderão o trema e outras andarão mais juntas, sem um hífen que as separe. Penso, por fim, em meu amigo Rená. O nobre se mandou para a terrinha ainda com as gramáticas separadas pelo Atlântico. Em sua volta, daqui a algumas semanas, encontrará as regras do idioma de Camões amalgamadas com o que se fala na terra onde canta o sabiá além de outras seis nações. Ao todo, 210 milhões de pessoas em quatro continentes devem escrever da mesma forma até 31 de dezembro de 2012. Nessa multidão, encontramos o nosso amigo Rená, que trará expressões fresquinhas da Europa em fevereiro para o nosso deleite de não precisarmos decorar o próximo dicionário de vocábulos ou regressar aos bancos escolares nas aulas de Língua Portuguesa.

Deolinda - espantar a tristeza com alegria.

Um dia desses um amigo perguntou se eu ainda continuo sem ouvir música. Eu disse que agora eu escuto. Tenho uma certa falta de equipamentos eletrônicos. Tenho uns novos amigos. Que me dão pirataria. Coisa boa, muamba internacional. Fora isso, não vou à shows. Pelo mesmo motivo da falta de equipamentos eletrônicos.

Resolvo ir à Fnac, aqui perto de casa, show de graça, olho uns livros, sento na frente, espero atentamente.

A moça com o microfone:

- Aumenta um pouco aqui. Aumenta que não estou a ouvir. Aumenta que eu me tenho só nas laterais, um pouco mais aqui. Aqui na frente. Agora está bom. Mas não sei. Razoável. Não consigo entender, mas sabe, está um pouco agreste.

Em se tratando de artistas, a moça parecia que gostava muito da própria voz. Mas não consegui realmente entender o que seria um som agreste. Mas eu confiava nela. Moça bonita, vestida na simplicidade. Era apenas a passagem de som. Eu já conhecia o tom engraçado de algumas letras. Mas não confio muito nos eletrônicos. Queria mesmo ver como era dança a voz da moça.

Ela se troca. Arranja com ironia os músicos ao seu redor. Não é cantora de fado. Essa se for está ao lado. Ana Bacalhau. Não há fato preto. A moça jogou os guitarristas pra trás. A moça conseguiu um contrabaixista empolgado. Todos um tanto quanto alegres para a lisboeta situação.

O microfone agreste está ajustado. O show começa. A moça perturba meus tímpanos desacreditados na arte. A moça encanta. Espanta a tristeza característica do lugar, traz a tona um mundo de detalhes portugueses que passariam despercebidos. A moça canta. E a coisa é forte, contagia os poucos braços que mexiam, agora se empolgam a contradizer o lugar. A moça cantou. E eu saio feliz de um dia de fado alegre, não conseguiria definir melhor o que eles fazem.

Deolinda é isso. É piada. É música encorpada. Agreste.

O serviço:



http://www.myspace.com/deolindalisboa

segunda-feira

O tempo endoidou

Nos últimos meses, uma das frases que mais tenho ouvido é "este tempo está doido". No Verão, cai um dilúvio; no Inverno, fica um sol de rachar, dizem muitos.

Concordo, até, mas acho que não são só os fenômenos da natureza que andam loucos, nosso tempo cronológico-psicológico também endoidou. Se não, vejamos...ando por aí e nem parece que é dia 22 de dezembro. Nem parece que o Ano-Novo vem aí, não ouço ninguém falar nisso. E por outro lado, já vejo bandas e blocos de Carnaval caindo na folia, em pleno dia 18 de dezembro!

Nas ruas, poucas casas estão enfeitadas. Por toda parte, parece haver menos árvores de natal, menos animação, menos pessoas felizes. Onde estão as lampadinhas de pisca-pisca que simbolizam essa época? E as estrelas, e os gorros de Papai Noel? Será que o espírito de Natal desapareceu, como muitos profetizavam que aconteceria?

Também não vejo ninguém fazendo planos, resoluções de Ano-Novo, comentando o que esperam para os tempos vindouros. As únicas coisas que tenho ouvido são "este tempo está doido", "como o tempo está passando rápido", "nossa, esse ano voou".

Voou mesmo. Minha mãe tem a teoria de que o tempo anda passando tão rápido que perdemos a noção do mesmo. Assim, o Natal entra pelo Ano-Novo, que entra pelo Carnaval, e Páscoa, e Dia da Criança, e daqui a pouco tudo vai passar tão rápido que teremos uma data comemorativa a cada dois dias.

Não duvido, não duvido. Hoje mesmo me dei conta "putz, já é 22 de dezembro, daqui a dois dias é Natal". Nem parece que passou assim, tão rápido. Me lembro de estar, "ontem", na praia de Copacabana, brindando a chegada de 2008. Levei sete minutos pra escrever esse texto...putz, como passou rápido!

segunda-feira

Capitão Gancho

Ando sem ganchos novidadeiros. Pensei em começar falando da famosa crise, que todos acompanharam desde cedo mas, num exercício meio sadomasoquista, esperaram feder para (tentar) fazer alguma coisa. Mas quem não sabe disso? Os dois jornais que li no domingo seguiam no clima "salve-se quem puder" - até exacerbadamente - mas não pretendo entrar nesse mérito.

Não queria gastar a ponta dos meus dedos discorrendo nesse espaço virtual sobre a popularidade estrondosa do presidente Lula. Todos já sabem disso. É a tal prosperidade. Os que não gostam do Lula - um grupo que mingua a cada dia - continua reclamando com a mesma ferocidade e sangue na boca. O operário nordestino incomoda a classe média sulista. Qual é a novidade disso?

Obama? Pfff. Já não agüentamos mais ouvir sobre o presidente eleito do Império. E olha que o negão nem assumiu ainda. Além do que, passado o efeito do marketing esperançoso made in USA, ele vem se mostrando cada vez mais branco. Ficou chato e sisudo. Prefiro o Will Smith.

Tampouco poderia argumentar sobre o ano que ainda não acabou. Nasci em 1984. Logo, 16 anos depois dos acontecimentos que marcaram o século XX. Já revivi 1968 em filmes, livros, artigos, reportagens, quadros, músicas e relatos. Gosto do assunto, mas vamos combinar que saturou também.

Show da Madonna? Passo. Livro novo do Paulo Coelho? Ignoro. Atentados em Mumbai? A cobertura foi muito enfadonha (se comparada à pirotecnia hollywoodiana do 11/09/2001). Tragédia em Santa Catarina? É, realmente, foi bastante trágico.

Não sobra muita coisa. Mas vocês perceberam como o tempo mudou e hoje de tarde já batia um vento de chuva?

terça-feira

sábado

Janela em Movimento

Um sinal de trânsito. Uma curva. Um casal se beijando. Dois velhinhos sentados num banco de rua. Um homem que vai e outro que vem. Um castelinho. Um ponto de ônibus. Um sujeito em uma bicicleta com uma lâmpada piscando na frente, como se fosse um farol. Uma esquina. Uma placa de rua com o nome de um hotel argentino em cima. Uma mulher passeando com um cachorro. Outro sinal de trânsito.

Um sujeito careca ouvindo walkman em uma esquina. Um radar. O símbolo de uma empresa de telefonia. Um canteiro cheio de árvores, vazio. Dois caras estranhos conversando no canteiro. A Baía de Guanabara. Um letreiro de marca de refrigerante e outro de telefonia. Um monte de táxis parados em frente a um prédio. Um túnel.

Outro túnel. Uma loja de carros. Uma estátua. Uma lanchonete. Um botequim. Uma placa com uma seta "siga ou vire à direita". Uma banca de jornal. Uma loja de empanadas. Pessoas andando na rua. Outra curva. Um posto de gasolina. Seguranças conversando apoiados em uma cancela. Um colégio. Um cartaz dentro do colégio. Um orelhão. Um sujeito quase escondido em uma esquina.

Pessoas reunidas em uma esquina. Um letreiro azul e verde de uma loja de tintas. Um cartaz escrito 'Os estranhos' em um ponto de ônibus. Um relógio digital que marca 22h02. Uma senhora em um ponto de ônibus. Outro túnel.

Um caminhão de lixo. Uma padaria. Um sujeito passeando com um cachorro. Uma cancela vazia. Um clube. Uma praça. Uma curva. Outro cartaz escrito 'Os estranhos' em um ponto de ônibus. Uma mancha na parede. Uma curva. Uma árvore enrolada em lampadinhas natalinas. Uma luz verde lá longe. Um monte de tralhas apoiadas em uma árvore. Uma arquibancada.

Um casal passeando. Uma Lagoa. Lâmpadas de mercúrio. Um ponto de ônibus. Uma lata de lixo. O vão da grama entre o ponto do ônibus e a lata do lixo. Um sujeito fazendo exercício. Um homem fotografando alguma coisa. Luzes lá longe. Um clube. Um barco. A lanterna do ônibus da frente. Uma lata de lixo lá longe. Um cartaz escrito "10% de desconto". Uma esquina. Uma placa. Um carro. O letreiro de um prédio. Um posto de gasolina.

O ponto final.

quinta-feira

Weltliteratur

Amanheci escritor. Quase poeta ao fim do café da manhã. Desisti por conta de umas dores no estômago que me acometem por esses dias. E não é fácil. Aos vinte e cinco anos, e com alguns meses que dediquei ao estudo dessa possibilidade, escrever para meus leitores a decisão. E não abane a cabeça - leitor cruel - não ria com essa boca de canto que eu conheço tão bem. Muitos ficariam horrorizados e reprovariam, mas algo acontece que não poderia deixar de tentar. O Saramago incansável continua. Por que não? Eu, pobre mortal, com algum rastro de pequena literatura, não poderia me dedicar ao ofício? Tão nobre. Decidi comprar então uma maquina de escrever já que o meu pedido de casa boa na beira do mar e um super computador, cheio de brilho e botões, foi claramente negado pelo meu editor. Compreendi que esse é tempo de crise e que não poderia exigir tamanha ousadia. Comprarei minha maquina de escrever. Quase que gostaria da verdadeira maquina de fala escreve, mas não vai ser possível. Tenho que avisar aos familiares e tenho que fazer um banquete comemorativo. Recebi hoje uma parte do ordenado que vai servir como incentivo para trabalho tão penoso que seguirá, espero eu, no decorrer dos anos. Com a minha maquina de escrever correrei o mundo. O mundo e os cafés. Mas é uma dor no estômago que me acomete. Amanheci escritor, quase poeta ao fim do café da manhã e já me vejo atrasado para trabalhar, o auto-carro vai chegar, é o meu primeiro dia, vendo canais de TV.

Outbound

A maquina diz:
o cliente já tem histórico
de ligações
ele é um fax

O homem pondera:
ele é um fax

A maquina diz:
é possível falar com o
joão alves?

O homem - cansado - repete:
é possível falar com o
joão alves?

O homem - de lá - pondera:
ele morreu

A maquina insiste - no rebate das objeções - e diz:
o nosso pacote de televisão
tem mais de quarenta e cinco canais
canais do futuro

O homem - confuso - pondera:
queremos oferecer o futuro
para o senhor joão alves

O homem - de lá - de luto
desliga

O homem de cá - já maquina - pondera:
ele é um fax

terça-feira

sábado

Minha querida Viena

Nao sei. Escreveria outra coisa. Escreveria nada. Escrevo diário as vezes. Que virou mensário. Que pretende ser anuário. Ano de 2008. Só isso e nada mais. Escrevo aqui o comentário que escrevi ali, no blog de um grande amigo... de um grande amigo. E serve como diário. E serve como relato faltante de sinais gráficos chatos, distantes desse teclado alemao.

Rapaz, estou em uma cidade que te interessaria... peco desculpas pela falta de hábito em comentar seu blog e pela falta de sinais gráficos nesse pequeno comentário. A cidade é longe e nada mais justo que um teclado onde o y está no lugar do z e faltam algumas coisas. Viena. Linda Viena. Eles vendem telescópios por toda parte, faltam botequins e cerveja-de-garrafa-mesa-de-lata. É lindo e tem o rio Danúbio. Por baixo da terra estamos ainda na década de 60 ou coisa que o valha. Nao entendo uma palavra. Mas olho tao tranquilamente, com meu cigarro na boca, que o barulho das ruas me lembra o bairro do Flamengo. Com tudo na ordem. Ciclovias por toda parte e gente dizendo adeus. Colocaria eu, humilde que só, uma bagunca nesse lugar. Te convidaria - meu caro - pra tomar uma cerveja, mais barata que os 3 euros por um suco de manga. Saudade. Continue assim, urbano no detalhe, urbano como aquele velho itinerário do 432.

segunda-feira

Magritte

Homenagem

Eu quero essa árvore pra mim
assim
sem nada:
iluminada de sol
banhada de lua

Sintra is a Beautiful Place to Die



Ando por Sintra. Nem tenho mais ruas para dobrar. Ruas que não conheça de por menor. Ando por Sintra por uma força que não sei. Não era para andar em Sintra. Era pra ficar em casa e nada fazer até um sol virar lua. Era para dormir. No meio do caminho: um frio de cortar pedra. No meio do caminho: pedras a olhar montanha. Desde quando - fugitivo - do Brasil, Sintra me apetece, muito por conta de histórias dos outros em relação ao Glauber Rocha. Nunca vi rastro dele por aqui. Espero um dia assistir Diários de Sintra.
Ainda acredito que vou - outras vezes - ver, andar, café, pedras, ruas...
Bons autores quiseram Sintra. Byron. Nem mais uma citação, pois na labuta de ontem à noite estou com preguiça de catar canetas e papeis. Alguns quiseram morrer. Glauber Rocha.
Não quero morrer em Sintra. Há um sol diferente por aqui. Glauber chegou por aqui pela estação de trem "Grande Velocidade". E se esse lugar parou no tempo é porque se chega por aqui por outra dimensão. Alguma magia acontece. Quem chega na estação da Grande Velocidade tem que parar. Não há outro lugar no mundo para ir. É a ultima estação. Um pouco mais e... é o mar... e é a América...

quinta-feira

Rená Tardin no DocBlog!

In October, the whole World fits in Lisbon!


Esses dias espero trazer notícias sobre o cinema documental. O DocLisboa começa hoje (16/10) e já publiquei um texto mostrando as linhas gerais sobre o festival!
"Em Outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa" é o primeiro artigo no DocBlog do Carlos Alberto Mattos. Entrem e divulguem!
Doc Blog - Novas e boas sobre o documentário!

Black Bird

Black Bird

Roubado de http://euqueroapenasfalar.blogspot.com


Lonely. Apparently. Doing what? No idea. But, still singing. Flying. Jumping between the naked trees. Oh, there are naked streets also. Naked walks. People so dressed. Some cold. On the streets. In the faces. The tobacco is not enough to understand the movement. The calm. Here, at this town, the tobacco arrived for the first time in Europe. Now I’m smoking, like my ancestral. At least, half part of them. Again faces cold, closed. Maybe the cold from outside goes inside. Great ignorance!! What do I know? I’m cold also. Inside, outside, my feet, my hands, not my eyes. My heart, maybe. Someone called from a hot place. Another, from a snowing home. The calls said me that I’m not so cold. But cold, somehow. I know that I’m still alive. I could, I should, I would. Don’t like these mode verbs. They don’t express what is. They try to do what I want but, … Nice colour now, no dark, no clear. Almost gray. See some lights, growing while the darkness sky comes. The heaven is shinning, I dreamed something nice. Don’t remember. Was laughing when waked up. Good. Feel calm. The pipe was relaxing. Strange taste. Hot hands, now. Legs freezing. I could think about the sun at somewhere. Or, simply the smile more hot that I saw until today. Even the tears from her do my heart some comfort. God bless that smile. Someday I want to say again. Red eyes. Some water. But, not enough to leave the burden fall down. Thinking about mango. We had at our home. At the first, so sweet. At the other, more than one kind. More dark, now. Eyes looking the heaven. Seeing the control, the calm, the example. One year passed, I can’t remember the exact date. I don’t want. But, finally. I’m opening. I read some languages, I speak others, understand some eyes, some faces. The black bird went home, it is time to sleep.

quarta-feira

O bom ladrão

Um conto, é disso que chamo essas poucas palavras. Nem quero contar segredos de além, conto mesmo, neste conto o que se passa por ora aqui. Quem vos escreve é o ladrão. Para que sua identidade não venha ao mar de sentenças ainda não aplicadas. E para que isso seja algo realmente ficcional. Estamos a falar de um conto.
O fato é que ele roubava. Ou seria eu mesmo, já que sou o ladrão? Nunca fui entendido das gramáticas, mas trocar o pronome é arte das mais importantes.
Começou na sua juventude a desejar isso. Era tolhido pelos bons costumes visto que morava em uma vila no interior. Mas de certo que desejava. Atravessou continente, libertou-se de amarras leves e agora exercita diariamente o ofício. Era chegado à letras e roubou também o título do conto.
O bom ladrão é um romance de Fernando Sabino que nunca chegou a ler. Achava, ainda nesse tempo, que tinha que ler o livro desde o princípio, passando pelas partes medianas e seguindo assim até o país das maravilhas dos grandes letrados. Nunca passou da introdução.
Roubou – o título - na cara dura e o livro que era romance veio a virar conto. Cabe ao leitor vasculhar por ai, que deve encontrar outro conto, já que não se pode confiar em ladrões de cunho internacional.
Roubava isqueiros, fumava pouco e isso era algo que ele mesmo não entendia muito bem. Mas era articulado com as cores. Nacionalidades. Isqueiros internacionais. Não que guardasse ou coisa do tipo. Tinha certa tendência a perder o fruto do roubo. Isso mostra que nem o titulo do conto sabe muito bem roubar, não é tão bom em atributos tão nobres.
Roubava porque era sua única chance de encontrar os galãs de Hollywood da década de 30 e seus filmes negros. Roubava porque queria viver aqueles bandidos com suas raparigas de perucas baratas. Era tudo na vida uma tendência ao filme Noir. Dinheiro, assassinato e sexo barato.
Roubava isqueiros coloridos. Não era das amizades ricas, em que encontraria um exemplar prateado, como nos filmes que tanto sonhava. Roubava colorido a sonhar com uma vida em preto e branco. Sonhava com a amada e suas cigarrilhas. Nada disso tinha. Já disse que não era dotado de riquezas. Roubava. Isqueiros baratos-coloridos, justificava com filmes modernos de um cineasta que não gostava. Mas justificava. Há quem diga que ele proferia a torto e em directo que só o roubo é justificável. Roubava cada dia a mais.
Certo dia em festa de alto escalão, onde seus editores e futuros artistas do continente velho, todos eles a repetir coisas velhas de fumar, beber e falar da vida do próximo, ou apenas do cu da mulher do próximo, ele se viu tentado ao grande feito de sua vida. Nunca tinha visto com tamanha artimanha das facilidades um isqueiro barato-azul, por mesa de mesma cor e acompanhado da devida caixa de cigarros de duas letras de mesma cor - para que tudo rime e nada seja das grandes mentiras. Pensou em roubar. Conteve-se. Desejava. Paralisava. Cantava. Distraia os amigos. Roubaria.

- Preciso de um isqueiro - gritava o editor.

Ao pé do ouvido de seu fiel interlocutor para assuntos literários, o bom ladrão disse: tem um ali.

- E de quem é?

- Não sei, não sei mesmo.

- Parou de roubar?


Na negativa triste da cabeça, fez com que o editor prolongasse o assunto, mesmo com a pressa de acender as velas para o cumprir de anos de um dos artistas de tão nobre salão.
Tudo parou, claro que só os dois pararam por tanto tempo em um por menor desses. o resto bailava, e eram ondas de danças que faziam gestos ao pobre do isqueiro solitário.

- Nunca roubei de quem não conheço.


Com tamanha poesia, daquela afirmação triste, que impedia nosso artista maior de movimentar-se como a dança que passava de nacionalidade a nacionalidade. A coisa toda voltou ao normal. Parado ficado. O editor, sua pressa tradicional e capacidade para o mundo dos negócios das letras sentenciou, depois de pegar o isqueiro para rápido uso: gostei disso. Escreve um conto que publico na mesma e na hora!

Ruas pelo Mundo - Lisboa



A voz do operário fica numa ladeira.
Por onde anda a voz do operário?

domingo

Manual de Cinema

"Para fazer um filme basta uma rapariga e uma arma."
D.W. Griffith

quinta-feira

Rua da Vitória



o que se quer entender
é uma avenida que se chama liberdade.

praça da alegria, por ora não,
não sei
travessa da Glória
decido chegar à rua Áurea
que se brilho há,
deve ser perto
por ter de cruzar a rua da Vitória

continuemos então:
Áurea

chegamos ao Tejo
onde se vai para América
colocaram grades
não me deixam
ver:
se é para América
se é para voltar
Áurea
Vitória
Glória
Alegria
Liberdade
vejo novamente o Tejo - é longe -
onde se vai para a América
sem grades

segunda-feira

Aquele querido mês de agosto

Um olhar sobre um plano e o seu contracampo. O real e a ficção.

Escrevo sobre documentários e pássaros. Isto está lá no meu perfil. Nunca entendi bem o que isso quer dizer. Conta mesmo é que gosto de certa cinematografia do Real, não só ver, mas também no exercício de realizar. Então vamos falar de docs e pássaros.

Um filme Português



Aquele querido mês de agosto é um filme sobre a nostalgia a Agostinho – segundo o Priberam: são coisas que amadurecem em agosto – e que toma conta de Portugal. É o verdadeiro mês das férias por aqui. Muitos portugueses que moram em grandes cidades voltam para o interior, para rever a família e participar das festas religiosas e festivais de música.
A partir do material real, o cineasta parte para realizar uma ficção com os personagens que encontra pelo caminho. Pelo processo de realização, o que se dá a entender é que Miguel Gomes tinha pouco de concreto quando partiu. Acredito que tinha apenas a seguinte idéia:


Um triangulo amoroso nas férias de agosto e Pimba.

Pimba é uma espécie de forró de roça.
No primeiro ano de rodagem e diante de um material muito rico, Miguel resolve produzir o roteiro e encontrar o que precisa para fazer sua ficção. O seu filme –incluído na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2008 – percorre um caminho que poucas vezes o cinema consegue acertar. Há uma linha muito tênue, entre o que se quer contar e o que está a passar em frente à câmera – o tal do Real. E é esse o centro de sua narrativa ficcional, e não há uma tentativa de encobrir os limites do Real, a partir da presença dos mecanismos de filmagem ele tenta transparecer todo o processo. Uma força que tenta o tempo todo atacar o próprio cinema, seja apenas mostrando os refletores, ou o grande “coelhão” – apelido que o filme dá para o microfone - invadindo o quadro.
E quando o Real não serve mais ao realizador é porque ele encontrou a saída. Entra uma questão muito interessante dentro do cinema do Real. O cineasta e sua equipe – pequena – estão no front de batalha, em busca das imagens do povo, a esperar a realidade, essa que fica sempre abalada pela presença da câmera de filmar. Mas se a história é do povo eu sigo com a seguinte reflexão:

“Para que o povo esteja presente nas telas, não basta que ele exista: é necessário que alguém faça os filmes. As imagens cinematográficas do povo não podem ser consideradas sua expressão, e sim a manifestação da relação que se estabelece nos filmes entre os cineastas e o povo. Essa relação não atua apenas na temática, mas também na linguagem”
Jean-Claude Bernardet – Cineastas e imagens do povo.


O mecanismo do cinema do Real que mais gosto é o de deixar-se passar pela realidade, deixar que o tempo passe, no tempo de quem está a contar a história, a festa e o povo. Acho que é por isso que gosto de documentários e pássaros e gosto mais ainda de um Pessoa que diria: Passa ave, passa, e ensina-me a passar!
Pois é difícil entrar no clima da rodagem, deixar-se transparecer por aquilo que se passa, pois logo depois vem a montagem e a coisa desanda. Quando Miguel deixa-se passar pela realidade está fazendo esse tipo de plano no cinema que gosto. A partir do meio do filme encontra sua ficção e começa a correr a frente da realidade. E cada plano “real”, segue-se um contracampo do mesmo. Esse contracampo é que é o encontro da ficção perto demais da realidade que passa.
Então temos um homem de frente pro Real e à frente do Real – de costas, é lógico, mais frágil e pronto a cair – Miguel não cai e realiza um belíssimo filme, um musical, um filme simples de amor, um filme simples sobre a realidade que passa e sobre os pobres mortais do cinema a correr com a câmera na mão.

Lembro de uma passagem interessante na rodagem de O som da Roda, o meu querido Doc. Depois de um dia inteiro de coisas boas, acreditávamos que o filme estava na mão. Agora poderíamos inventar moda e correr – literalmente à frente dos bois. Chegar antes e fazer o contracampo.
- Vamos lá! A gente espera, pois o sol está se pondo... A gente fica lá na frente até os bois passarem. E teremos o melhor plano do filme!

E a turma toda correu a espera dos bois. Mas meu amigo, quando o boi empaca já era. E antes de dois metros do plano ficar pronto a comitiva de mais de 50 bois pára. A luz acaba. É noite para a câmera. Nada de plano.

Em Aquele querido mês de agosto o cineasta português consegue isso em sua segunda longa-metragem, e nos mostra onde colocou o pé no Real e onde esperou pela ficção que surgiria brevemente em um agosto qualquer.
Coloco alguns trechos de Aquele querido mês de agosto. Não acredito que esse filme chegue ao Brasil. Quem sabe antes de voltar eu consiga uma cópia do filme e a gente assiste lá em casa!

Mas fica a pergunta: o que é um contracampo? Explicação simples eu não encontrei. Segue o que João Mario Grilo escreveu em “As lições do Cinema – Manual de Filmologia”

“O contracampo é nesse sentido, um fora de campo especial. Sendo o campo a porção de espaço fílmico incluído no enquadramento, o contracampo é uma porção de espaço equivalente, no mesmo lugar e na mesma ação, obtido pela rotação da câmera sobre seu eixo de, num ângulo aproximado aos 180º.”







domingo

Acabou o amor, isso aqui vai virar um inferno!

A turma ocupou a reitoria da Uerj. Estou longe do front, mas o que a turma pede são os 6% do orçamento. Só porque isso nunca foi cumprido. Nunca. É no mínimo justo.




sábado

E o filme acabou




Entregamos a cópia final (?), entregamos o DVD e a fita Digital. O filme estreou. Depois de tanto tempo a conviver com a história (minha também) que queria contar o filme chega ao Festival Brasileiro de Cinema Universitário e acabo de receber a confirmação para a 2a Mostra do Filme Ambiental e Etnográfico de Rio das Ostras .

Começamos com a seguinte ideia:

O som da Roda

“Deixa-te levar pela criança que foste.”

O Livro dos Conselhos


“Fujo da mera explicação jornalística: o quê? quando? onde? Vou atrás de uma festa que marcou minha infância. Com lembranças e imagens busco a explicação poética. É a festa de Carros de Boi que acontece em Raposo, distrito de Itaperuna.”


Não sei se cheguei perto dessas palavras, aos trancos e barrancos chegamos. Fico contente que chegamos.

Ao longo do caminho todo o tipo de imprevisto que só uma boa produção universitária pode ter: não há câmera, pede a da UFF; produz no intervalo do estágio e perde alguns fins de semana; pede apoio para os Hotéis da região, escuta algumas negativas pelo caminho; ganhamos um almoço – sem refrigerante pra ter o que reclamar; perde um celular e acha um celular...

Quanta coisa e andamos de carro de boi.

Saímos mesmo com a pauta definida, vamos atrás do Som da Roda. Sem saber muito bem o que isso seria. Depois de um dia não muito produtivo, estacionamos em frente a uma plantação de arroz – isso quer dizer que tem lama no meio.

- Não, não vamos não, isso é uma plantação de arroz e estamos atrás de carro de boi.

- Eu entendo, está irritado ou coisa assim. Eu vou assim mesmo.

- Você é muito teimoso e coisas mais que o valha. Espera que eu vou.

E a partir do simpático dialogo entre o fotógrafo e diretor impaciente encontramos o que significava o tal som da roda.

É a alegria do Carreiro! Disse com toda convicção e simplicidade o meu Carreiro Geovan

É por isso que eu sigo no DOC. Existe algo que não se explica lá no meio da plantação de arroz. Há de se entender que no meio da coisa pode haver lama, mas é normal. Chegamos ao filme. Chegamos a um lugar interessante: qual o próximo filme?

sexta-feira

Aula de cinema: não esqueça a secretária experiente!

A realização cinematográfica!

"Geralmente, a primeira equipa a ser contratada é composta por um produtor e um realizador, podendo ser adjudicado um director artístico no caso de longas metragens.
... seria aconselhável pedir ajuda a um bom director de produção, ou um produtor delegado, se o orçamento lho permitir.
Em qualquer caso, a equipa deverá contratar, logo na fase inicial, uma secretária experiente, para a dactilografia do guião, contactos telefónicos, correspondência, etc."

Directing Emotion pictures - Terence St. John Marner.

E assim a gente aprende a fazer bons filmes. Com bons manuais. Boa aparência e uma boa maquina de escrever.

terça-feira

Cenas da Baixada

Era manhã de domingo quando o povo se aglomerou. O espocar dos tiros dispersou a massa apenas por instantes. O ruído da moto fugindo em carreira deu sinal de que o amontoado poderia se formar no entorno do cadáver ainda fresco.

"Um sargento da PM foi morto a tiros na manhã deste domingo em Belford Roxo, município da Baixada Fluminense. Josué Queiroz de Araújo, de 45 anos, tinha acabado de sair de um supermercado na Rua Retiro da Imprensa e seguia até seu carro, um Corsa Sedan, quando foi abordado por um homem em uma moto."


Até cobrirem o corpo com uma lona prateada fora do comum, já era grande o número de bicicletas e crianças rondando o corpo do policial. Os primeiros companheiros de farda a chegar agiam com aspereza de sempre. Ao descobrirem a identidade do defunto, talvez tenham sentido medo.

Ouvem-se depoimentos, relatos ao batalhão e todo 'proceder'. Chega a imprensa. O vento que bate rasteiro e quase levanta a lona -trazendo ao mundo a face da morte- aponta para a esquina de trás.

Fogos de artifício e animação ao microfone. "Belford Roxo tem que mudar! No dia 5 de outubro, vote fulano (a) para vereador (a)!".

A multidão, já enjoada do defunto, então, dispersa.


Isso tudo a apenas 20 quilômetros da Radial Oeste.

sexta-feira

Conversa

- Vamos sair e fumar
um cigarro?
Minha mente está a pensar
umas besteiras e é preciso
Sair e verificar.

- Vamos sim! Sei que precisas
Disso pra já.

- Qualquer coisa me diz
que vamos conversar a noite
Toda.

segunda-feira

Urbanidades - 19h10m


Tijuca, Rio de Janeiro, abril de 2008

sexta-feira

Desânimo

Ando por aí e bate um desânimo...
O ato de "andar por aí" já é perigoso. Preciso olhar a todo instante para trás, para frente, para os lados, para cima. Não me descuidar mais um minuto sequer, pois a morte "espreita em cada esquina". Por mais que haja locais melhores e piores, a ordem parece ser "não vacile nunca, jamais". Nem na Zona Sul, uma espécie de "ilha de fantasia" carioca, a gente pode parar um minuto para amarrar o sapato.

Medo da nossa cabeça? Talvez...

Se ando por aí de ônibus, o desânimo só aumenta. Agora, além de me preocupar com assaltos e ladrões - preciso manter o olhar fixo na porta, o tempo inteiro, e descer se observar algum "elemento suspeito" - ainda tem o incômodo de não achar lugar para sentar, ficar espremido em pé no ônibus, sob um calor africano, no meio de um engarrafamento horrível, atento para ver se enfiam a mão nos meus bolsos para roubar o celular, a carteira, se abrem a mochila. Não dá nem para descansar a cabeça um minuto que seja.

Medo da nossa cabeça? Talvez...

Ando por aí - mantendo a atenção - e vejo abandono total, em tudo, em todos os aspectos, em todos os níveis. Pichações em fachadas de prédios, gente dormindo na rua, lixo e sujeira, trânsito totalmente congestionado, praias perigosas, ruas perigosas, avenidas perigosas.
Ando por aí e vejo dengue, febre amarela, gente com fome, hospitais lotados, descaso, miséria, pobreza. Não mais nos guetos, nos grotões: a pobreza que as classes mais altas empurraram para fora de suas vistas, na década de 60, está batendo em suas portas pintadas e decoradas, de arma em punho, cobrando a enorme dívida que nunca foi paga.
Vejo um povo que não é "povo", é "público" - mas não o culpo por isso. O dia-a-dia de um trabalhador é muito duro, sim, são dez, doze horas voltado à labuta, para ganhar o dinheirinho suado no fim do mês, para mal conseguir comer, sustentar os filhos, levar uma vida digna.
Ando por aí e vejo as escolas abandonadas, alunos sem aprender.
Ando por aí e vejo gente desmotivada, sem emprego. Está mudando? Claro. Mas estamos cansados de gerúndio.
Ando por aí e vejo imbecilidades por toda a parte, gente querendo soluções simples para problemas complexos (Estado da Guanabara...legalizar drogas...proibir armas), o medo nos olhos, nos gestos, nas palavras. Medo de ser assaltado, medo de morrer, medo de não ter onde morar, medo de perder o emprego. Medo de perguntar e de dizer as horas.
Ando por aí e vejo um Rio de Janeiro cheio de potencial, capaz de ser um dos maiores pólos de turismo no mundo - mas que está jogando tudo isso fora, pela janela, com todo esse abandono, em todas as partes, em todos os níveis.
Ando por aí e vejo uma justiça corrupta, uma polícia corrupta, um poder público corrupto, tudo corrupto, tudo corrompido, tudo comprado - e tudo vendido. Nem o esporte, de tantas alegrias, anda bem. Muito dinheiro, muita corrupção, bons jogadores sendo vendidos precocemente, ídolos que não tem nada de ídolos, péssimos e horríveis exemplos.
O que é pior, ando por aí e vejo um círculo vicioso terrível, que envolve tudo o que descrevi e muito mais, e do qual não vejo saída. Sabem, estou triste e desanimado. Gosto do meu país e da minha cidade, mas isso aqui não é mais lugar para se viver. É com muita tristeza que digo: quero ir embora daqui.
E se pudesse, já tinha ido.

quinta-feira

Reco

Blog novo na área. Mais um bom espaço de discussão política da melhor qualidade.

E ainda é ponto com.

Tainã Nalon

Em breve, na barra de links ao lado.

terça-feira

Na taba


ABRIL INDÍGENA - Índios caminham em frente ao Congresso Nacional, em Brasília. Representantes de diversas tribos acamparam nesta terça-feira na Esplanada dos Ministérios para cobrar providências sobre fiscalização de reservas e políticas de saúde. Um surto de diarréia e vômito já matou uma criança de um ano e atingiu outros 57 curumins, além de quatro adultos da aldeia Tiryó, em Óbidos, norte do Pará.

Crédito: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

quinta-feira

Terceiro mandato

Era um síndico exemplar. Daqueles que recepcionam os fiscais da prefeitura e inspecionam a lavagem da portaria. Já tinha perdido as contas das noites que passou em claro, frente à tabelas intermináveis de custos e arrecadação do condomínio. Sua mulher, mesmo resignada, não perdia a mania de reclamar. "Você está trabalhando demais", dizia ela arrastando as chinelas em direção ao quarto. Ele não se importava, já era o sexto ano na função, faltavam apenas dois.

Administrador por formação, e aposentado por tempo de serviços prestados a uma repartição pública, o prédio era uma extensão de sua própria casa. Adorava ouvir as reclamações intermináveis da senhora gorda do 502 nas reuniões de condomínio. "Depois que ficou viúva, desconta a carência pela boca", pensava enquanto escrevia a reclamação, cuidadosamente, no livro de atas.

Um dia, após colar cartazes sobre a manutenção dos elevadores em todos os quinze andares, sentou no sofá da portaria e refestelou-se. Como todos sempre lhe foram muito simpáticos, estranhou os olhares indiretos e as respostas resumidas daquela manhã. Da senhora do 502 ouviu um murmuro: "ditador". Não entendeu nada.

Pressionou o porteiro, um velho nordestino estabelecido na Vila da Penha há quarenta anos, que, suado, acabou confessando. "Estão dizendo por aí que o senhor vai tentar o terceiro mandato", disse com forte sotaque sertanejo.

Terceiro mandato? Quem disse? Nunca havia lhe passado pela cabeça um impropério como esse. No último natal, havia prometido à mulher que largaria a administração do prédio para se dedicar à estufa recém-instalada na casa de Cachoeiras de Macacu. Essa possibilidade era um descalabro!

Convocou uma reunião extraordinária de condomínio. O propósito era saber quem difundiu tamanho absurdo pelos corredores do pacato edifício tijucano. Tão logo começou a falar, a tropa de choque das viúvas - gorda do 502 à frente - começou a reclamar:

"O senhor é um ditador. Não pode ficar mais de oito anos no poder. A administração é democrática e precisa ser oxigenada" disse ela, com certeza baseada em um dos livros do finado marido, um jurista de renome.

O síndico mal teve tempo de falar, negar tudo aquilo e restabelecer a ordem naquele pardieiro. Após a fala agressiva da senhora do 502, foi a vez da jovem professora do 707 falar. Ela ponderou, com muita propriedade, o bom trabalho realizado pelo síndico. Mas mostrou-se em dúvida sobre a necessidade do terceiro mandato. Por fim, falou o zelador. E confessou ter sido ele próprio o autor da idéia que conduziria o atual síndico por mais quatro anos a frente do prédio.

Discussão estabelecida. Até que perguntaram a vontade real do síndico. "Não quero mais quatro anos". Nem a senhora do 502 e tampouco o zelador ou a professora do 707 acreditaram. E a discussão perdurou por mais alguns meses, até que alguém quebrou o interfone do play.

quarta-feira

Azul

então tenho vivido em Lisboa
ando e escuto
Lisboa
que não me sai da cabeça
Brasil.

telhados de Lisboa
e esse azul de dois olhos
distantes.

céu absurdo
Lisboa
absurda

agora vejo
uns pedintes no Metro

agora não. agora tenho um ecrã
luminoso
agora não vejo nada.
uns pedintes como os de lá
a fome é universal.

e esse azul - de olhos distantes - não me sai
pelas andanças.

Rená Tardin

segunda-feira

Memórias de um Aedes

Acordei em um vaso de plantas na Zona Oeste do Rio. Era segunda-feira e estava sol quente, em contraste com a água onde repousava: morna e calma. O sinal foi dado pela fome, por isso tive que sair dali. Zanzando pelas ruas, nada me parecia apetitoso. O cheiro anda meio artificial, um perfume repelente ruim de agüentar. Ouvi dizer que há uma nova droga na moda, chama-se "Off". Não sei a origem da nomenclatura, talvez você fique "off" durante a onda ou algo parecido. Dizem inclusive que já foram registradas algumas mortes por conta dele.

Meu único desejo hoje era um alimento saudável, balanceado e saboroso. É melhor ir até a Zona Sul em busca disso, quem sabe não pego uma criança do Leblon ou uma garota de Ipanema. Percorri alguns quilômetros, fugi de alguns tapas e raquetes que dão choque. De repente, uma bunda. Ela era rechonchuda e estava empinada para cima, presa fácil. Parecia suculenta, por isso não resisti. A picada foi inevitável. A dona estava tão entretida com seu Ipod, tomando sol na varanda, que nem se incomodou com a minha presença, muito discreta por sinal. O almoço foi garantido.

Encontrei uma outra galera numa caixa d'água de uma casa abandonada em Botafogo. Eles estavam preocupados com as recentes batidas nas quebradas onde a mosquitada costuma se reunir. Há dois meses, lembravam, era uma festa. Não havia pneu velho ou garrafa encharcada que não se tornasse uma festa por estas - e outras - paragens. Hoje, o clima é de enterro. Os mais assustados já cogitam até se mudar para São Paulo, ou outro lugar que valha. Os mais ranzinzas reclamavam da mudança de postura do prefeito do Rio, aliado de primeira hora que veio a capitular.

O zum-zum-zum logo foi repelido com a passagem de um fumacê e dos temidos fiscais mata-mosquitos. Voei pra longe, sem nem pestanejar (até porque são muitos olhos piscando). Deu fome de novo e passei por uma escola em horário de lanche. Desta vez, não fui bem sucedido. As crianças estavam todas em polvorosa com a campanha impetrada contra a minha classe (ou seria espécie?). Por onde eu passava parecia que tinha ganhado um prêmio, dada a quantidade de palmas por segundo. Voei. No trânsito intenso, um braço dava sopa para fora do carro. Não pensei duas vezes, e tasquei-lhe uma picada.

Os mais velhos contam que a primeira cruzada contra nós deu-se ainda no início do século XX. O nome do carrasco: Oswaldo Cruz. Não entendo o porquê de tanta perseguição, estamos aqui desde sempre. O clima é favorável, chove e faz sol com uma facilidade incrível. De 1999 para cá, foram pelo menos três campanhas. Se eu tivesse uma espinha, sei que ela ficaria arrepiada ao ver os cartazes que beiram o Velho Oeste, ainda que sem oferta de recompensa. Às vezes fico pensando: "porque não nasci pernilongo?"

domingo

A culpa é (só) de Fidel?

Encontrei uns velhos professores comunistas em um bar da Tijuca, domingo desses. Eles ainda continuam inflamados ao defenderem seus pontos de vista, apesar da suavização que a falta de barba e as roupas burguesas podem proporcionar. Entre um chopp e outro, falamos sobre a percepção de tempo, política, drogas, educação e filosofia de boteco. Pude extrair, ainda que sob o efeito etílico, algumas aspas emblemáticas:

"O apartamento dela parecia aquele filme 'A culpa é de Fidel'. Era uma espécie de albergue, onde todos se encontravam para discutir. Estávamos no frenesi da abertura, mas a filha dela não parava de chorar. Então eu ia lá ficar com ela, e acabava dormindo, enquanto as mulheres de peito debatiam na sala"

"Nossa geração transpôs muitas barreiras, ao contrário do que acontece hoje. Tivemos que ir contra a família e a hipocrisia dos costumes para experimentarmos nossa vida política, sexual e espiritual. Hoje, até pelo ambiente em que vivemos, os jovens podem fazer experimentações assim como quem vai ao shopping. Isso é bom por um lado, mostra que o esforço não foi em vão"

"Dilma é boi de piranha. O Lula é uma cobra, ele sabe que o PT não terá força para fazer seu sucessor. Ele está barganhando uma vice-presidência para o partido"

"Na década de 1970, nós experimentamos tudo. Mas não era como hoje. Ia gente lá em casa com uma lata enorme de pó, e a gente só cheirava um pouquinho. Fumávamos bastante, mas cheirávamos pouco. Na década de 1980, a coisa ficou mais grave e eu tive que fazer um esforço enorme, ficar quieta, para me livrar daquilo"

"A educação pública hoje faz com que os professores fiquem desestimulados. Nos cursos pré-vestibulares e na escola particular, eles sentem-se uma estrela, apesar de trabalhar sem as garantias do serviço público. A educação de excelência da escola pública deve ser resgatada"

"Quando você tem 40, queria ter 35. Quando completa 50, queria 45. Ao chegar aos 60, morre de saudade dos 55. Aí, no fim da vida, percebe que não aproveitou nada daquilo"

"A juventude é o momento em que devem ser feitas as opções políticas, sexuais e filosóficas que podem orientar o resto da existência"

sábado

será conto?

Morena

Conversei com a mais bela mineira da região. Ela falou de estudos e tudo mais. Eu tirava as espinhas do peixe que comia com a mão. Deveria engolir? Não sei. Como se faz com as espinhas e uma moça tão bela?

Rená Tardin

quarta-feira

Jorge

Jorge é um personagem de um conto que não devo escrever. Ilumino Jorge. Jorge assim simples. Sem uma palavra depois. Jorge tem uma mania estranha. Um tanto quanto cômica, para não se falar em um caso de filme Noir.
Aquela luz - primeiro em seu sapato branco, lindamente engraxado - vai caminhar com Jorge até o fim do - que seja - conto, crônica ou roteiro.
É certo que não fuma, mas como poderei desperdiçar essa luz? Jorge segura seu cigarro Ritz com a mão direita, ele está sentado em um banco na porta de casa - esperando a conversa e esperando ansiosamente falar da novidade. Seu sapato é branco - insisto. O cigarro queima devagar - traga delicadamente - e seu cabelo é loiro-castanho-caju. Como foi complicado percorrer por essas lojas de departamento para saber o nome - segundo - do loiro que Jorge usa em seus cabelos um dia brancos.

- Calça nova Jorge?

- Ganhei agora, junto com o sapato branco - era doutor - a madame não quis dar nada além disso , mas o corte italiano da calça já valeu a espera. E como marquei ponto.

- A minha roupa você nunca vai usar.

- Já medi você com os olhos - é do meu tamanho.

- Sai filhote de cruz-credo!

Jorge ria, tragava mais uma vez o cigarro que não fuma, um riso simples de quem tem toda habilidade. Dificilmente ele fala de seu ofício, mas como as roupas que meu tio usa não são tão boas, Jorge não se importa. Quando tem novidade vem logo mostrar. Ele espera o rico, o fazendeiro, o médico que mora lá na capital - as vezes ele viaja em seu trem. É difícil entender, mas com essa luz ,apenas para Jorge, ele espera mais um morrer de morte sofrida - para que a viúva não se importe e entregue o guarda-roupa. Jorge tem apenas roupas na medida. Diante de tanto tempo na estrada ele vai visitar apenas quem tem futuro, ou melhor, quem não tem dias de sobra. Como quem espera na esquina a observar manequins. Jorge sempre vigia a vítima, ou faz visitas quando o sujeito ainda está de cama - dizem que chora - isso não me atrevo a colocar de palavras próprias. Insisto na luz e no cigarro. O sorriso nefasto-simpático de sempre.

Jorge usa apenas roupas finadas. Esse é o oficio de Jorge. Apago a luz e tudo deixa de sombra.

Rená Tardin

quinta-feira

Casa Cid e a escória da humanidade

É lá que devemos nos encontrar! A casa Cid fundada em 1913 - posso dizer que é um bar pois tenho boas intenções - mas o que eu realmente poderia dizer desse estranho lugar? Vamos para uma breve descrição - já que comecei até com um título - fato que causa bastante comoção a esses dedos cansados de objectividade. O bar recebe todos os dias o que há de pior na humanidade, ou o melhor eu diria corrigindo a construção. O melhor para a poesia e o melhor da humanidade para uma película Noir. Sendo no vício, no ócio e no jogo que se faz uma nação, aqui na Casa Cid é onde encontramos a melhor combinação de bêbados, fumadores invertebrados, gente um tanto quanto sem fala ou sem vida. Todos suspensos no ar apenas pelo copo meio vazio. Opa! Estamos a falar de um bar como outro qualquer? Há Bares que vêm para o bem - diria um itaperunense. A casa Cid recebe todo tipo de coisa pois funciona apenas no horário mais ingrato e necessário para os pés do Bairro Alto em Lisboa (onde a boémia se encontra por aqui). Basta descer as ladeiras, descer o elevador da Bica escorregando em algum objecto plástico - ou se preferir um trenó vermelho - que irá encontrar esse belo bar. Mas é preciso chegar bem cedo pois o bar só funciona das 4 da madruga até 8 da manhã. E é por isso que o que se vê lá pode não ser muito agradável. Um homem pobre e mal cheiroso sendo muito bem tratado pelo garçon. Um homem preso pelo copo no balcão, falando ou apenas tendo uns espasmos necessários para o funcionamento do corpo. Um homem cansado. Uma mulher rindo sozinha. Um homem que fuma com uma prostituta - e nesse bar ninguém pode fumar, mas quem irá reclamar? Todo esse time unido por um ambiente muito agradável e limpo. O povo é sujo mas o bar acabou de abrir. Fiz uns amigos por lá. Hoje nos encontraremos em melhores condições. Lá se vende até café! Vida longa a casa Cid, ao garçon super educado que lá existe - armado com sua vassoura e ignorância imensurável - vida longa a toda essa gente que se encontra sempre no fim da festa.

Cuidado com os copos pois eles costumam voar.

Rená Tardin

sábado

Tédio

Hoje choveu rápido e forte. O suficiente para me inundar de tédio. Busco consumi-lo em tragadas de cigarro fortuitas. A chama parece reacendê-lo na intensidade de sua luz. A fumaça que sai de minha garganta seca, escorrega pelo meu rosto com seu cheiro de fim. Olho pela janela e centenas delas se oferecem ao meu olhar. Nada me interessa, nada me estimula a não ser a idéia de sair correndo pelos ares, em busca de um horizonte distante. Janelas vazias e sem graça. Todas as luzes estão apagadas, exceto uma com um senhor sentado na poltrona. Nenhuma luminosidade aparente. Sentado, pernas cruzadas, e a cabeça ereta, olhar fixo. Tenho a impressão de que estejam virados para dentro, procurando em seu mundo algo que o prenda a este. A janela entreaberta parece não significar nada. Na sala, um abajur; a mesa posta, cadeiras fora do lugar sugerem uma presença oculta ou distante. Seus pensamentos escorrem pelo sofá, saindo por seus parcos cabelos que a idade ainda permite. Vejo-os todos e não compreendo-os. O fluxo contínuo dá a impressão de que já vazam pelo corredor afora. Sobem em uma velocidade assustadora, fazem ondas e nada parece demovê-lo. Acompanho seu afogamento perplexo.

Amanhã, uma nota (quiçá): Tédio afoga idoso em Copacabana.

terça-feira

O sonhador, o vento e o banco do parque

Meia-noite. Sem pressa, ele caminhava devagar por entre as árvores, seguindo pela alameda iluminada apenas pela luz da lua, e cercada de árvores dos dois lados. Depois de uma curva, estava lá o imenso portão de aço, todo enferrujado, que rangia terrivelmente toda vez que se abria.
Com o máximo de cuidado que era possível, ele ergueu uma das mãos, tirando-a dos bolsos de seu sobretudo, e empurrou o portão. O rangido se espalhou por toda a floresta, como um grito na noite. Parecendo não se importar, ele entrou, caminhou mais um pouco até chegar ao velho banco de praça, e então se sentou. Uma leve brisa soprou, refrescando a noite e levantando as folhas do chão do parque.
Há quanto tempo não se sentava naquele banco de praça? Três? Quatro anos? Mais, talvez. Muito menos, quem sabe. Houve uma época em que costumava ficar ali, admirando a lua e as estrelas, tendo idéias. Houve uma época em que achou que isso não servia para nada. Mas quem disse que tudo na vida tem de servir para alguma coisa?
Meteu a mão no bolso esquerdo da capa e sacou um maço de cigarro e um isqueiro. Retirou um cigarro, acendeu, tragou, cuspiu a fumaça, tirou o cigarro da boca...e ficou pensando. Tanta coisa acontecera enquanto esteve longe de seu banco de praça. Tantos amigos. Tantos chopes. Tantas coisas engraçadas. Tantas mulheres. Tantos beijos, abraços, cumprimentos, risadas, bons momentos. Tantos lugares bons, tantos jogos divertidos, tantas bebidas maravilhosas, tantas aventuras. E que coisa engraçada, nada havia permanecido. Tudo passou.
O vento voltou a soprar, e carregou para longe uma das folhas daquele chão de outono. Sim, pensei, aqueles momentos, desde a última vez que havia me sentado no banco de praça, eram cada um como uma daquelas folhas, que permaneciam ali no chão criando um ambiente bonito, poético, com o banco de praça ao fundo, o cara sentado fumando no escuro, apenas a lua iluminando a cena, como um holofote daqueles de monólogo de teatro. Aquela folha que voou na minha frente parecia um desses momentos que passam. E a vida agora, para mim, parecia o chão à minha frente: um campo aberto, sem nada a se preencher.
Como realmente o tempo havia passado. Dois? Três? Quatro anos? Como uma mola comprimida pela imagem da folha, as lembranças começaram a voltar à mente dele. Agora não pareciam tão boas assim. A derrota do Brasil na Copa, frustrações amorosas, pessoais e profissionais, erros cometidos pelo caminho, besteiras que não precisavam ser ditas, mancadas verbais e físicas, dores, choros, sofrimento. A música que lembrava quem ele queria esquecer, as músicas que recordavam seu tempo de infância e quase o levavam às lágrimas, as coisas que fizera e que achava que tinham sido perda de tempo. E que coisa engraçada, nada havia permanecido. Tudo passou.
Novamente o vento soprou, agora mais forte, trazendo poeira e mais folhas em plena madrugada de outono. Fechou os olhos com força e baixou a cabeça, tentando evitar que a poeira atingisse seus olhos. O cigarro apagou. Mais folhas pararam na frente do banco. Ele abriu os olhos devagar. Como que teimando, o vento voltou a soprar, em uma brisa muito leve, e levou as folhas embora de novo, deixando o chão vazio.
Larguei o cigarro, as lágrimas começaram a rolar pelo rosto. Retirei as mãos dos bolsos e levei aos olhos, soluçando. Não conseguia me conter. Chorava. A natureza agora decidira ser metafórica e falar de acordo com meus sentimentos? Até ela estava contra mim agora, decidira ventar e levar para longe o que era bom e o que fora ruim? Como se já não bastasse todas as dúvidas, ainda havia algo de metafórico naquilo tudo? O que fora a minha vida no tempo em que não estive sentado no banco do parque, ou da praça, ou seja lá qual for o banco? Um amontoado de folhas que embelezam a paisagem e são carregadas embora pelo vento? Uma imagem poética de um texto de blog "madrugante" (considerando que "madrugante" não é necessariamente um texto escrito pelo Seu Madruga) ? O que, afinal, eu construíra durante esse tempo do lado de fora do parque, longe do banco mas nem tanto assim?
E como que respondendo, o vento soprou novamente, atingindo seu rosto com força. Ele enxugou as lágrimas, tentou se controlar. Não sabia. Não tinha as respostas prontas. Nem com quem conversar, agora que o vento levara tudo. Então, pegou o cigarro e o atirou longe, e voltou as mãos aos bolsos. Parou de pensar. Ficou apenas contemplando a paisagem do parque "madrugante" (que não, não necessariamente é o parque onde mora o Seu Madruga). Olhando a sombra das árvores escuras, o brilho das estrelas no horizonte, a lua que o iluminava, como num daqueles velhos monólogos de teatro. Se não tinha nada, então olharia o que estava em volta, sem se preocupar.
E o vento soprou pela última vez, trazendo folhas que passaram e deixando outras aos pés dele, em meio à fria madrugada de outono.