sábado

Janela em Movimento

Um sinal de trânsito. Uma curva. Um casal se beijando. Dois velhinhos sentados num banco de rua. Um homem que vai e outro que vem. Um castelinho. Um ponto de ônibus. Um sujeito em uma bicicleta com uma lâmpada piscando na frente, como se fosse um farol. Uma esquina. Uma placa de rua com o nome de um hotel argentino em cima. Uma mulher passeando com um cachorro. Outro sinal de trânsito.

Um sujeito careca ouvindo walkman em uma esquina. Um radar. O símbolo de uma empresa de telefonia. Um canteiro cheio de árvores, vazio. Dois caras estranhos conversando no canteiro. A Baía de Guanabara. Um letreiro de marca de refrigerante e outro de telefonia. Um monte de táxis parados em frente a um prédio. Um túnel.

Outro túnel. Uma loja de carros. Uma estátua. Uma lanchonete. Um botequim. Uma placa com uma seta "siga ou vire à direita". Uma banca de jornal. Uma loja de empanadas. Pessoas andando na rua. Outra curva. Um posto de gasolina. Seguranças conversando apoiados em uma cancela. Um colégio. Um cartaz dentro do colégio. Um orelhão. Um sujeito quase escondido em uma esquina.

Pessoas reunidas em uma esquina. Um letreiro azul e verde de uma loja de tintas. Um cartaz escrito 'Os estranhos' em um ponto de ônibus. Um relógio digital que marca 22h02. Uma senhora em um ponto de ônibus. Outro túnel.

Um caminhão de lixo. Uma padaria. Um sujeito passeando com um cachorro. Uma cancela vazia. Um clube. Uma praça. Uma curva. Outro cartaz escrito 'Os estranhos' em um ponto de ônibus. Uma mancha na parede. Uma curva. Uma árvore enrolada em lampadinhas natalinas. Uma luz verde lá longe. Um monte de tralhas apoiadas em uma árvore. Uma arquibancada.

Um casal passeando. Uma Lagoa. Lâmpadas de mercúrio. Um ponto de ônibus. Uma lata de lixo. O vão da grama entre o ponto do ônibus e a lata do lixo. Um sujeito fazendo exercício. Um homem fotografando alguma coisa. Luzes lá longe. Um clube. Um barco. A lanterna do ônibus da frente. Uma lata de lixo lá longe. Um cartaz escrito "10% de desconto". Uma esquina. Uma placa. Um carro. O letreiro de um prédio. Um posto de gasolina.

O ponto final.

quinta-feira

Weltliteratur

Amanheci escritor. Quase poeta ao fim do café da manhã. Desisti por conta de umas dores no estômago que me acometem por esses dias. E não é fácil. Aos vinte e cinco anos, e com alguns meses que dediquei ao estudo dessa possibilidade, escrever para meus leitores a decisão. E não abane a cabeça - leitor cruel - não ria com essa boca de canto que eu conheço tão bem. Muitos ficariam horrorizados e reprovariam, mas algo acontece que não poderia deixar de tentar. O Saramago incansável continua. Por que não? Eu, pobre mortal, com algum rastro de pequena literatura, não poderia me dedicar ao ofício? Tão nobre. Decidi comprar então uma maquina de escrever já que o meu pedido de casa boa na beira do mar e um super computador, cheio de brilho e botões, foi claramente negado pelo meu editor. Compreendi que esse é tempo de crise e que não poderia exigir tamanha ousadia. Comprarei minha maquina de escrever. Quase que gostaria da verdadeira maquina de fala escreve, mas não vai ser possível. Tenho que avisar aos familiares e tenho que fazer um banquete comemorativo. Recebi hoje uma parte do ordenado que vai servir como incentivo para trabalho tão penoso que seguirá, espero eu, no decorrer dos anos. Com a minha maquina de escrever correrei o mundo. O mundo e os cafés. Mas é uma dor no estômago que me acomete. Amanheci escritor, quase poeta ao fim do café da manhã e já me vejo atrasado para trabalhar, o auto-carro vai chegar, é o meu primeiro dia, vendo canais de TV.

Outbound

A maquina diz:
o cliente já tem histórico
de ligações
ele é um fax

O homem pondera:
ele é um fax

A maquina diz:
é possível falar com o
joão alves?

O homem - cansado - repete:
é possível falar com o
joão alves?

O homem - de lá - pondera:
ele morreu

A maquina insiste - no rebate das objeções - e diz:
o nosso pacote de televisão
tem mais de quarenta e cinco canais
canais do futuro

O homem - confuso - pondera:
queremos oferecer o futuro
para o senhor joão alves

O homem - de lá - de luto
desliga

O homem de cá - já maquina - pondera:
ele é um fax

terça-feira

sábado

Minha querida Viena

Nao sei. Escreveria outra coisa. Escreveria nada. Escrevo diário as vezes. Que virou mensário. Que pretende ser anuário. Ano de 2008. Só isso e nada mais. Escrevo aqui o comentário que escrevi ali, no blog de um grande amigo... de um grande amigo. E serve como diário. E serve como relato faltante de sinais gráficos chatos, distantes desse teclado alemao.

Rapaz, estou em uma cidade que te interessaria... peco desculpas pela falta de hábito em comentar seu blog e pela falta de sinais gráficos nesse pequeno comentário. A cidade é longe e nada mais justo que um teclado onde o y está no lugar do z e faltam algumas coisas. Viena. Linda Viena. Eles vendem telescópios por toda parte, faltam botequins e cerveja-de-garrafa-mesa-de-lata. É lindo e tem o rio Danúbio. Por baixo da terra estamos ainda na década de 60 ou coisa que o valha. Nao entendo uma palavra. Mas olho tao tranquilamente, com meu cigarro na boca, que o barulho das ruas me lembra o bairro do Flamengo. Com tudo na ordem. Ciclovias por toda parte e gente dizendo adeus. Colocaria eu, humilde que só, uma bagunca nesse lugar. Te convidaria - meu caro - pra tomar uma cerveja, mais barata que os 3 euros por um suco de manga. Saudade. Continue assim, urbano no detalhe, urbano como aquele velho itinerário do 432.