terça-feira

Reforma

Leio sobre a nova reforma ortográfica, a terceira em um século. Algumas palavras perderão o trema e outras andarão mais juntas, sem um hífen que as separe. Penso, por fim, em meu amigo Rená. O nobre se mandou para a terrinha ainda com as gramáticas separadas pelo Atlântico. Em sua volta, daqui a algumas semanas, encontrará as regras do idioma de Camões amalgamadas com o que se fala na terra onde canta o sabiá além de outras seis nações. Ao todo, 210 milhões de pessoas em quatro continentes devem escrever da mesma forma até 31 de dezembro de 2012. Nessa multidão, encontramos o nosso amigo Rená, que trará expressões fresquinhas da Europa em fevereiro para o nosso deleite de não precisarmos decorar o próximo dicionário de vocábulos ou regressar aos bancos escolares nas aulas de Língua Portuguesa.

Deolinda - espantar a tristeza com alegria.

Um dia desses um amigo perguntou se eu ainda continuo sem ouvir música. Eu disse que agora eu escuto. Tenho uma certa falta de equipamentos eletrônicos. Tenho uns novos amigos. Que me dão pirataria. Coisa boa, muamba internacional. Fora isso, não vou à shows. Pelo mesmo motivo da falta de equipamentos eletrônicos.

Resolvo ir à Fnac, aqui perto de casa, show de graça, olho uns livros, sento na frente, espero atentamente.

A moça com o microfone:

- Aumenta um pouco aqui. Aumenta que não estou a ouvir. Aumenta que eu me tenho só nas laterais, um pouco mais aqui. Aqui na frente. Agora está bom. Mas não sei. Razoável. Não consigo entender, mas sabe, está um pouco agreste.

Em se tratando de artistas, a moça parecia que gostava muito da própria voz. Mas não consegui realmente entender o que seria um som agreste. Mas eu confiava nela. Moça bonita, vestida na simplicidade. Era apenas a passagem de som. Eu já conhecia o tom engraçado de algumas letras. Mas não confio muito nos eletrônicos. Queria mesmo ver como era dança a voz da moça.

Ela se troca. Arranja com ironia os músicos ao seu redor. Não é cantora de fado. Essa se for está ao lado. Ana Bacalhau. Não há fato preto. A moça jogou os guitarristas pra trás. A moça conseguiu um contrabaixista empolgado. Todos um tanto quanto alegres para a lisboeta situação.

O microfone agreste está ajustado. O show começa. A moça perturba meus tímpanos desacreditados na arte. A moça encanta. Espanta a tristeza característica do lugar, traz a tona um mundo de detalhes portugueses que passariam despercebidos. A moça canta. E a coisa é forte, contagia os poucos braços que mexiam, agora se empolgam a contradizer o lugar. A moça cantou. E eu saio feliz de um dia de fado alegre, não conseguiria definir melhor o que eles fazem.

Deolinda é isso. É piada. É música encorpada. Agreste.

O serviço:



http://www.myspace.com/deolindalisboa

segunda-feira

O tempo endoidou

Nos últimos meses, uma das frases que mais tenho ouvido é "este tempo está doido". No Verão, cai um dilúvio; no Inverno, fica um sol de rachar, dizem muitos.

Concordo, até, mas acho que não são só os fenômenos da natureza que andam loucos, nosso tempo cronológico-psicológico também endoidou. Se não, vejamos...ando por aí e nem parece que é dia 22 de dezembro. Nem parece que o Ano-Novo vem aí, não ouço ninguém falar nisso. E por outro lado, já vejo bandas e blocos de Carnaval caindo na folia, em pleno dia 18 de dezembro!

Nas ruas, poucas casas estão enfeitadas. Por toda parte, parece haver menos árvores de natal, menos animação, menos pessoas felizes. Onde estão as lampadinhas de pisca-pisca que simbolizam essa época? E as estrelas, e os gorros de Papai Noel? Será que o espírito de Natal desapareceu, como muitos profetizavam que aconteceria?

Também não vejo ninguém fazendo planos, resoluções de Ano-Novo, comentando o que esperam para os tempos vindouros. As únicas coisas que tenho ouvido são "este tempo está doido", "como o tempo está passando rápido", "nossa, esse ano voou".

Voou mesmo. Minha mãe tem a teoria de que o tempo anda passando tão rápido que perdemos a noção do mesmo. Assim, o Natal entra pelo Ano-Novo, que entra pelo Carnaval, e Páscoa, e Dia da Criança, e daqui a pouco tudo vai passar tão rápido que teremos uma data comemorativa a cada dois dias.

Não duvido, não duvido. Hoje mesmo me dei conta "putz, já é 22 de dezembro, daqui a dois dias é Natal". Nem parece que passou assim, tão rápido. Me lembro de estar, "ontem", na praia de Copacabana, brindando a chegada de 2008. Levei sete minutos pra escrever esse texto...putz, como passou rápido!

segunda-feira

Capitão Gancho

Ando sem ganchos novidadeiros. Pensei em começar falando da famosa crise, que todos acompanharam desde cedo mas, num exercício meio sadomasoquista, esperaram feder para (tentar) fazer alguma coisa. Mas quem não sabe disso? Os dois jornais que li no domingo seguiam no clima "salve-se quem puder" - até exacerbadamente - mas não pretendo entrar nesse mérito.

Não queria gastar a ponta dos meus dedos discorrendo nesse espaço virtual sobre a popularidade estrondosa do presidente Lula. Todos já sabem disso. É a tal prosperidade. Os que não gostam do Lula - um grupo que mingua a cada dia - continua reclamando com a mesma ferocidade e sangue na boca. O operário nordestino incomoda a classe média sulista. Qual é a novidade disso?

Obama? Pfff. Já não agüentamos mais ouvir sobre o presidente eleito do Império. E olha que o negão nem assumiu ainda. Além do que, passado o efeito do marketing esperançoso made in USA, ele vem se mostrando cada vez mais branco. Ficou chato e sisudo. Prefiro o Will Smith.

Tampouco poderia argumentar sobre o ano que ainda não acabou. Nasci em 1984. Logo, 16 anos depois dos acontecimentos que marcaram o século XX. Já revivi 1968 em filmes, livros, artigos, reportagens, quadros, músicas e relatos. Gosto do assunto, mas vamos combinar que saturou também.

Show da Madonna? Passo. Livro novo do Paulo Coelho? Ignoro. Atentados em Mumbai? A cobertura foi muito enfadonha (se comparada à pirotecnia hollywoodiana do 11/09/2001). Tragédia em Santa Catarina? É, realmente, foi bastante trágico.

Não sobra muita coisa. Mas vocês perceberam como o tempo mudou e hoje de tarde já batia um vento de chuva?

terça-feira