É lá que devemos nos encontrar! A casa Cid fundada em 1913 - posso dizer que é um bar pois tenho boas intenções - mas o que eu realmente poderia dizer desse estranho lugar? Vamos para uma breve descrição - já que comecei até com um título - fato que causa bastante comoção a esses dedos cansados de objectividade. O bar recebe todos os dias o que há de pior na humanidade, ou o melhor eu diria corrigindo a construção. O melhor para a poesia e o melhor da humanidade para uma película Noir. Sendo no vício, no ócio e no jogo que se faz uma nação, aqui na Casa Cid é onde encontramos a melhor combinação de bêbados, fumadores invertebrados, gente um tanto quanto sem fala ou sem vida. Todos suspensos no ar apenas pelo copo meio vazio. Opa! Estamos a falar de um bar como outro qualquer? Há Bares que vêm para o bem - diria um itaperunense. A casa Cid recebe todo tipo de coisa pois funciona apenas no horário mais ingrato e necessário para os pés do Bairro Alto em Lisboa (onde a boémia se encontra por aqui). Basta descer as ladeiras, descer o elevador da Bica escorregando em algum objecto plástico - ou se preferir um trenó vermelho - que irá encontrar esse belo bar. Mas é preciso chegar bem cedo pois o bar só funciona das 4 da madruga até 8 da manhã. E é por isso que o que se vê lá pode não ser muito agradável. Um homem pobre e mal cheiroso sendo muito bem tratado pelo garçon. Um homem preso pelo copo no balcão, falando ou apenas tendo uns espasmos necessários para o funcionamento do corpo. Um homem cansado. Uma mulher rindo sozinha. Um homem que fuma com uma prostituta - e nesse bar ninguém pode fumar, mas quem irá reclamar? Todo esse time unido por um ambiente muito agradável e limpo. O povo é sujo mas o bar acabou de abrir. Fiz uns amigos por lá. Hoje nos encontraremos em melhores condições. Lá se vende até café! Vida longa a casa Cid, ao garçon super educado que lá existe - armado com sua vassoura e ignorância imensurável - vida longa a toda essa gente que se encontra sempre no fim da festa.
Cuidado com os copos pois eles costumam voar.
Rená Tardin
quinta-feira
Casa Cid e a escória da humanidade
sábado
Tédio
Hoje choveu rápido e forte. O suficiente para me inundar de tédio. Busco consumi-lo em tragadas de cigarro fortuitas. A chama parece reacendê-lo na intensidade de sua luz. A fumaça que sai de minha garganta seca, escorrega pelo meu rosto com seu cheiro de fim. Olho pela janela e centenas delas se oferecem ao meu olhar. Nada me interessa, nada me estimula a não ser a idéia de sair correndo pelos ares, em busca de um horizonte distante. Janelas vazias e sem graça. Todas as luzes estão apagadas, exceto uma com um senhor sentado na poltrona. Nenhuma luminosidade aparente. Sentado, pernas cruzadas, e a cabeça ereta, olhar fixo. Tenho a impressão de que estejam virados para dentro, procurando em seu mundo algo que o prenda a este. A janela entreaberta parece não significar nada. Na sala, um abajur; a mesa posta, cadeiras fora do lugar sugerem uma presença oculta ou distante. Seus pensamentos escorrem pelo sofá, saindo por seus parcos cabelos que a idade ainda permite. Vejo-os todos e não compreendo-os. O fluxo contínuo dá a impressão de que já vazam pelo corredor afora. Sobem em uma velocidade assustadora, fazem ondas e nada parece demovê-lo. Acompanho seu afogamento perplexo.
Amanhã, uma nota (quiçá): Tédio afoga idoso em Copacabana.
terça-feira
O sonhador, o vento e o banco do parque
Meia-noite. Sem pressa, ele caminhava devagar por entre as árvores, seguindo pela alameda iluminada apenas pela luz da lua, e cercada de árvores dos dois lados. Depois de uma curva, estava lá o imenso portão de aço, todo enferrujado, que rangia terrivelmente toda vez que se abria.
Com o máximo de cuidado que era possível, ele ergueu uma das mãos, tirando-a dos bolsos de seu sobretudo, e empurrou o portão. O rangido se espalhou por toda a floresta, como um grito na noite. Parecendo não se importar, ele entrou, caminhou mais um pouco até chegar ao velho banco de praça, e então se sentou. Uma leve brisa soprou, refrescando a noite e levantando as folhas do chão do parque.
Há quanto tempo não se sentava naquele banco de praça? Três? Quatro anos? Mais, talvez. Muito menos, quem sabe. Houve uma época em que costumava ficar ali, admirando a lua e as estrelas, tendo idéias. Houve uma época em que achou que isso não servia para nada. Mas quem disse que tudo na vida tem de servir para alguma coisa?
Meteu a mão no bolso esquerdo da capa e sacou um maço de cigarro e um isqueiro. Retirou um cigarro, acendeu, tragou, cuspiu a fumaça, tirou o cigarro da boca...e ficou pensando. Tanta coisa acontecera enquanto esteve longe de seu banco de praça. Tantos amigos. Tantos chopes. Tantas coisas engraçadas. Tantas mulheres. Tantos beijos, abraços, cumprimentos, risadas, bons momentos. Tantos lugares bons, tantos jogos divertidos, tantas bebidas maravilhosas, tantas aventuras. E que coisa engraçada, nada havia permanecido. Tudo passou.
O vento voltou a soprar, e carregou para longe uma das folhas daquele chão de outono. Sim, pensei, aqueles momentos, desde a última vez que havia me sentado no banco de praça, eram cada um como uma daquelas folhas, que permaneciam ali no chão criando um ambiente bonito, poético, com o banco de praça ao fundo, o cara sentado fumando no escuro, apenas a lua iluminando a cena, como um holofote daqueles de monólogo de teatro. Aquela folha que voou na minha frente parecia um desses momentos que passam. E a vida agora, para mim, parecia o chão à minha frente: um campo aberto, sem nada a se preencher.
Como realmente o tempo havia passado. Dois? Três? Quatro anos? Como uma mola comprimida pela imagem da folha, as lembranças começaram a voltar à mente dele. Agora não pareciam tão boas assim. A derrota do Brasil na Copa, frustrações amorosas, pessoais e profissionais, erros cometidos pelo caminho, besteiras que não precisavam ser ditas, mancadas verbais e físicas, dores, choros, sofrimento. A música que lembrava quem ele queria esquecer, as músicas que recordavam seu tempo de infância e quase o levavam às lágrimas, as coisas que fizera e que achava que tinham sido perda de tempo. E que coisa engraçada, nada havia permanecido. Tudo passou.
Novamente o vento soprou, agora mais forte, trazendo poeira e mais folhas em plena madrugada de outono. Fechou os olhos com força e baixou a cabeça, tentando evitar que a poeira atingisse seus olhos. O cigarro apagou. Mais folhas pararam na frente do banco. Ele abriu os olhos devagar. Como que teimando, o vento voltou a soprar, em uma brisa muito leve, e levou as folhas embora de novo, deixando o chão vazio.
Larguei o cigarro, as lágrimas começaram a rolar pelo rosto. Retirei as mãos dos bolsos e levei aos olhos, soluçando. Não conseguia me conter. Chorava. A natureza agora decidira ser metafórica e falar de acordo com meus sentimentos? Até ela estava contra mim agora, decidira ventar e levar para longe o que era bom e o que fora ruim? Como se já não bastasse todas as dúvidas, ainda havia algo de metafórico naquilo tudo? O que fora a minha vida no tempo em que não estive sentado no banco do parque, ou da praça, ou seja lá qual for o banco? Um amontoado de folhas que embelezam a paisagem e são carregadas embora pelo vento? Uma imagem poética de um texto de blog "madrugante" (considerando que "madrugante" não é necessariamente um texto escrito pelo Seu Madruga) ? O que, afinal, eu construíra durante esse tempo do lado de fora do parque, longe do banco mas nem tanto assim?
E como que respondendo, o vento soprou novamente, atingindo seu rosto com força. Ele enxugou as lágrimas, tentou se controlar. Não sabia. Não tinha as respostas prontas. Nem com quem conversar, agora que o vento levara tudo. Então, pegou o cigarro e o atirou longe, e voltou as mãos aos bolsos. Parou de pensar. Ficou apenas contemplando a paisagem do parque "madrugante" (que não, não necessariamente é o parque onde mora o Seu Madruga). Olhando a sombra das árvores escuras, o brilho das estrelas no horizonte, a lua que o iluminava, como num daqueles velhos monólogos de teatro. Se não tinha nada, então olharia o que estava em volta, sem se preocupar.
E o vento soprou pela última vez, trazendo folhas que passaram e deixando outras aos pés dele, em meio à fria madrugada de outono.
quinta-feira
Passeio no inferno
A definição de Dante Alighieri ao chegar ao primeiro círculo do inferno se encaixaria bem à Rua Manoel Vieira, próximo à selva de pedra do Centro de Duque de Caxias, município da região metropolitana do Rio de Janeiro. Ao invés de encontrar Vírgilio, que poderia nos conduzir na empreitada infernal, avistei uma série de camisas pretas aglomeradas num bar ao pé da íngreme ladeira. Além das vestimentas negras, acessórios pontiagudos, coturnos e toucas contrastavam com o calor abafado de 40ºC. Só faltou o enxofre.
O objetivo de tal empreitada era claro, apesar da predominância do preto. Cerca de 400 pessoas estiveram no primeiro show da banda mexicana Brujeria feito em terras fluminenses. Como em todo bom show de metal, os 'cabrones' do thrash metal não tocaram sozinhos. Cinco outros grupos, entre eles o recém-reunido Taurus, dividiram o palco a la baile funk instalado na quadra do Clube Recreativo Caxiense.
A cerveja era elemento essencial para contrabalancear o suor que aboletava-se pelos pescoços e peças de couro. O esforço físico também fazia-se necessário, já que o CRC ficava no topo de uma ladeira dantesca. Despido das vestimentas formais, os headbangers - eles odeiam serem chamados de 'metaleiros' - expunham tatuagens de diferentes tipos, tamanhos, desenhos e cores. Uns a ostentavam em locais pouco usuais, como o próprio rosto. O pentagrama invertido, que revelaria a verdadeira face do demônio Baphomet, estava entre o top ten das figuras mais tatuadas entre os presentes.
- Esse ano (2007) foi bom. Tivemos Napalm Death, Slayer e agora Brujeria. Gastei mo dinheirão, mas valeu a pena - recordava um banger, camisa dos alemães do Mötorhead, em meio a uma roda de amigos. Apenas um vestia blusa amarela.
Seis cervejas depois, o desafio de, finalmente, encarar a ladeira rumo ao clube. No caminho, o entreouvido da conversa três jovens com piercings, cabelos presos num rabo e cinto de tachinhas, destoou do figurino que portavam:
- E aí? Vamos virar punks?
Esses poderiam ser encaixados na definição de 'falsos'. Eles seriam os que não abraçam o metal como a única lei, e sucumbem aos apelos do canto da sereia pop. Contra isso, estão os 'trues'. O grupo está sempre a postos para atacar, de forma quase inquisitória, os falsos em todas as suas vertentes. Um dos principais lemas é: "True não toma mel, come a abelha". Os ogros do inferno, sem menor sombra de dúvida.
Uma parede descascada em aspecto decadente indicava o clube. Mais do que isso, já chamava atenção desde o meio do caminho os riffs pesados de guitarra e o rufar dos pedais duplos da terceira banda que se apresentava naquela tarde quente de domingo. R$ 30, a entrada - um bilhete dourado com os nomes dos grupos que se apresentariam por ali.
Lá dentro, uma multidão já transitava pelas dependências do clube abertas ao público de preto. Próximo ao bar e a entrada da quadra enfileiravam-se uma série de mesinhas de plástico com CDs, vinis e DVDs raros das mais variadas bandas de metal, acessórios dos mais cavernosos como pulseiras de spike, cordões de caveira e até coleiras. As camisas pretas de banda, não poderiam deixar de figurar entre os produtos vendidos. Eram centenas delas.
Além de cerveja, o calor também era aplainado com o consumo largo de maconha. Os headbangers de hoje não tem mais preconceitos com aquela que seria "droga de hippies". Alguns, de tão exaltados, sugeriam que tivessem tomado sintéticos. Mas não havia nada que comprovasse, além do suor em cascata e os litros de água bebidos.
- A próxima atração já está saindo do hotel - informou o apresentador do evento, em referência ao Brujeria, por volta das 22h.
A chegada da noite não trouxe clima mais lúgubre. Do contrário, até melhorou o clima. O show mais aguardado estava para começar. Bastaram os primeiros acordes para a platéia vir abaixo, ou melhor, iniciar uma roda.
As rodas são um fenômeno social digno de estudo aprofundado. Como explicar um clarão que se forma em meio a multidão, com homens (e também algumas mulheres) dando socos, tapas e rasteiras uns nos outros? E ainda saem felizes da experiência, relegada pelos círculos antropológicos.
Muita porradaria depois, já no bis, apelado aos gritos de "Brujeria!", um incidente: algum incauto rouba o chapéu de cowboy do baixista e ele recusa-se a retomar o show sem o acessório. Muitos apelos, de todos os integrantes da banda, mais staff, mais presidente de fã clube e nada de chapéu. Os portões do Caxiense são cerrados e aqueles que planejavam ir embora mais cedo - já era 1h da manhã - são impedidos. Um princípio de confusão começa, mas logo é resolvido pela palavra. Afinal, briga só na roda porque os banguers são de paz.
Livre do brujeria, ainda pude escutar a música sendo reiniciada, talvez a última. A essa altura já estava descendo a ladeira do inferno ao purgatório, onde, de acordo com Dante Alighieri, "a alma humana se purifica, e se torna digna de elevar-se ao céu". Se estivesse em nossos tempos, o autor de "A Divina Comédia" estenderia, com certeza, a passagem pelo inferno por mais algumas páginas.
segunda-feira
UNIDADE HABITACIONAL AUTÔNOMA - 15/05/2072
Acordo. Com a mesma intenção de domingo. Para aumentar a segurança — desta infame construção repetitiva — uso minha vestimenta Plumbífera. Apenas para garantir. O mesmo elevador e seus botões laranja. A mesma pessoa, no mesmo horário, com a cara diferente e sem a cara de um vizinho irritante. Evito monossilábicos. Nem amanhã. Nem domingo. Na TeleTela um novo aviso: pedimos — ENCARECIDAMENTE — que os moradores não usem a janela para jogar as cinzas dos cigarros. Use preferencialmente o cinzeiro ou a lixeira do andar! Sempre achei que aqueles recados sonoro-visuais não iriam animar. Animo. Sinto que sou forte novamente. Minha roupa de chumbo anda sempre comigo.
Rená Tardin